Blogue da SP

Guedes
2010-03-15 12:21:00
A Hora do Tubarão: Há mais de 100 anos
Eram quase sete da noite, o sol mais que posto, quando o João, de sorriso rasgado e prancha debaixo do braço, olha para mim e diz: "Shark time".

No dia em que cheguei à Austrália, quarenta horas depois ter saído, três vôos e duzentos quilometros de carro até Newcastle, onde decorria o WQS Newcastle Surfest, fomos, eu e o Marcelo Martins, buscar o João Guedes ao aeroporto. Eram aí umas cinco e meia da tarde. Cansaço, jet lag e sono desaguaram numa decisão consensual e lógica: vamos fazer um surf. O João, que precisa manter a sua preparação, ainda não tinha surfado; o Marcelo precisava da sua dose diária de prancha e eu precisava de tomar banho, que ainda não tinha tomado.

Pegar nas pranchas não pegar, vestir fato não vestir, acabámos por entrar na água aí pelas seis e meia/sete. O crowd a ir-se embora com o sol. O pico era mesmo junto a um pointbreak, na foz de um rio, junto a um gigantesco porto onde acostam todos os dias dezenas de cargueiros. Um viveiro de tubarões. E aí o João diz-me, com um sorriso rasgado, a mim, que sou um eternamente principiante surfista: "É shark time". Com a motivação no mínimo e a adrenalina no máximo, lá entrei. Lá surfamos e de lá saímos com todos os bracinhos e perninhas com que tínhamos entrado. E este blog ficou baptizado.

Diz, no Rough Guide to Australia, que ninguém é seriamente comido por um tubarão em Bondi Beach há para aí cem anos. Mas diz-se também que todos os anos há dezenas de ataques e gente a ficar um pouco mais curta em alguma parte do corpo, embora disso não se faça notícia por ordem do governo, para não afectar o turismo.

Eu gosto desta estória, mito ou não mito, até porque parece que a população está toda metida nesta cabala. É que, sempre que temos surfado, o pessoal local, sem que ninguém lhes pergunte nada, diz que ali há muito tubarão mas que ninguém é comido há mais de cem anos. É a repetição do número que é suspeita. São cem anos, sempre cem anos. Não 50, nem 70 nem um número mais a meio como, por exemplo, 37. Não senhor, é 100 anos.

Hoje (no dia em que escrevo este texto, não objectivamente hoje no dia em que o lês) surfámos num sítio fantástico - foi uma dica de um brasileiro que trabalha numa surf shop em Sydney - um beachbreak perfeito em Catherine Hill Bay, Catho para os locais. Um pico de postal: esquerda e direita, água transparente, morna e off-shore. Um pico convenientemente chamado Graveyards (Cemitério). Diz que - no pub onde comemos - há lá muito tubarão devido à proximidade de umas lajes e rochas ricas em peixe mas que (reparem) há mais de 100 anos que ninguém é lá comido.

Mito urbano? Para mim é uma cabala. Tenho a certeza.


Pedro Bidarra

Nome
Email
Título
Comentário

Comentários

  • 2010.03.16 17h08:59 (André Macedo) (Comentários) responder
    Grande Bidarra. Que inveja não estar aí. Que inveja não ter este diário no i. Mas diz-me, de que tamanho eram as ondas?

    + Surf Portugal

    foto do dia
    [Fotogaleria] - Recordar é viver: As Meninas Reef nunca passam de moda

    Sobrevivem às novas tendências, à mudança de

    foto do dia
    Fotogaleria - O que podemos encontrar... na praia.
    Assinatura Digital
    Assina a SURFPortugal AQUI.
    banner_surf_tempo
    banner_surf_tempo
    Banner RSS
    Beachcam
    O SURF COMO FENÓMENO MULTIDIMENSIONAL INTEGRADOR DE VALOR por Sérgio Nunes – Versão Integral »
    Blogs
    Quem será o campeão mundial da ASP em 2010?
    SURF´s UP
    MMS TMN