1. A Problemática
Temos vindo a assistir nos últimos anos à destruição de uma quantidade assinalável de ondas de elevada qualidade, por via da construção de diversos "equipamentos económicos e sociais", nomeadamente molhes, marinas, espigões, etc. Os processos de tomada de decisão incorporam um conjunto de interesses legítimos e condicionadores da decisão e, em alguns casos, têm existido tentativas de incorporação dos interesses e das aspirações da comunidade do surf nos processos de tomada de decisão. Contudo e apesar de se reconhecer o impacto comercial e financeiro e das actividades conexas, quer a montante quer a jusante da "actividade do surf", os resultados não têm sido os mais desejados, ou seja, as ondas continuam a ser destruídas, a preservação dos recursos afectos ao surf não têm tido sustentabilidade e o desenvolvimento do surf enquanto elemento integrador de valor para a sociedade encontra-se num estádio muito incipiente. Porquê? É possível atacar o problema? Como fazê-lo? É uma reflexão em torno destas questões que vos proponho começar hoje aqui a fazer.
2. Do interesse individual ao interesse colectivo
O ser humano responde a estímulos e ordena os seus comportamentos em função dos seus desejos, paixões e interesses. Há um conjunto de interesses (legítimos) que os diversos agentes públicos e privados procuram implementar no seu quotidiano. Podemos querer construir uma casa, uma barragem, um aeroporto, um molhe, uma marina, preservar uma paisagem, uma espécie animal ou vegetal, etc. Facilmente se percebe também que os interesses não têm todos o mesmo valor, nem são prosseguidos pelos mesmos agentes, embora tenham todos a mesma legitimidade de ser aspirados e prosseguidos, desde que de forma legal.
Neste sentido, facilmente se percebe que podem surgir, e surgem frequentemente, incompatibilizações entre interesses individuais, entre diferentes interesses colectivos e entre aquilo que queremos individualmente e aquilo que a sociedade prossegue num determinado momento da sua história. A sociedade prossegue os seus interesses por via das diferentes políticas (ambientais, económicas, educação, saúde, justiça, desporto, etc.) que prossegue. As políticas não são todas iguais e por isso a sociedade organiza-se em partidos que defendem soluções diferentes para os problemas que identificamos no dia-a-dia e que necessitam de solução. Por exemplo, o desemprego é um problema cujas soluções não são as mesmas se defendidas pelo Francisco Louçã ou pelo Paulo Portas. Nós votamos em partidos distintos porque, em princípio, eles defendem soluções diferenciadas para a prossecução dos nossos interesses. Vamos analisar com algum detalhe a Figura 1, um esquema teórico-conceptual que concebi para explicar e promover soluções para o principal problema que identifiquei.
Faço um especial apelo à vossa capacidade de abstracção para compreenderem estes conceitos - capacidade que sei ser enorme, basta pensar nas surfadas memoráveis, com as manobras mais inalcançáveis, nos picos mais incríveis que fazemos diariamente sem movermos um único músculo no nosso corpo a não ser o mais importante -, uma vez que são muito importantes para toda a análise posterior.
No eixo horizontal temos representado a Percepção de Valor Individual, isto é, para um determinado fenómeno a importância que nós, enquanto indivíduos, damos a esse fenómeno. Essa importância pode ser muita ou pouca e aumenta de importância à medida que nos deslocamos da esquerda para direita ao longo desse eixo horizontal. Por sua vez, esta percepção de valor individual traduz-se numa função de bem-estar individual que representa a hierarquização dos nossos gostos ponderados pelas diversas restrições que a sociedade nos coloca (orçamentais, legais, etc.).
Cada um de nós tem uma função de bem-estar. Isto significa que aquilo que me anima, me motiva e me faz feliz pode coincidir em alguns aspectos com a tua função de bem-estar mas será, certamente, muito diferenciada noutros aspectos. É este facto que conduz os indivíduos a formarem grupos que partilham ideias similares, princípios tendencialmente coincidentes e comportamentos mutuamente identificáveis entre os elementos do grupo. Penso que não será necessário aprofundar muito mais esta componente da análise para que se compreenda como se forma a complexidade dos grupos e dos seus objectivos e as diferenças entre elementos dos grupos e entre grupos.
Figura 1 - MODELO DE ANÁLISE E TOMADA DE DECISÃO

No eixo vertical temos representada a percepção de Valor Colectiva. Grupos distintos dentro da sociedade - seguindo a metodologia de comportamento explicitada para os indivíduos - organizam-se em torno de interesses comuns e, para um determinado fenómeno, o valor que lhe reconhecem aumenta à medida que subimos no eixo vertical. Deduz-se então uma função de bem-estar colectiva que hierarquiza também as vontades de grupos da sociedade que se organizam de acordo com diferentes tipos de regras e procedimentos.
Ora, a forma de prosseguir os dois tipos de funções é muito diferenciada. Se eu quero viajar ou surfar posso fazê-lo sozinho e sem incomodar ninguém mas se eu quiser construir uma universidade (ou legitimar o casamento homossexual) já tenho de encontrar outras formas de actuação. Provavelmente encontrar um conjunto de pessoas que defenda o mesmo que eu em termos de educação, formar uma associação, fazer petições, levar esse desejo a quem tem o poder de decisão sobre a política educativa e por aí adiante. No caso em que a política educativa conduz à construção de uma universidade numa determinada localização podemos dizer que aquilo que valorizámos individualmente foi igualmente reconhecido pelo grupo da sociedade que nos representa e que foi operacionalizada por via da política e das diferentes medidas que a corporizam.
Pensemos agora na diagonal da nossa figura. Sobre essa diagonal existe coincidência entre aquilo que tem valor para nós enquanto indivíduos e a valorização que a sociedade faz, de forma colectiva, sobre o fenómeno em causa. Estão, então, reunidas as condições mínimas para que de forma colectiva se possam prosseguir os objectivos que nós temos enquanto indivíduos. Essas soluções revestem-se, preferencialmente, por medidas de política mais ou menos formais.
Se pensarmos um pouco facilmente se compreende que o triângulo abaixo da diagonal representa tudo aquilo que nós valorizamos e desejamos e que ainda não se encontra reflectido nos interesses colectivos da sociedade. Por outro lado, o triângulo acima da diagonal representa tudo aquilo que a sociedade prossegue por via de uma determinada política mas na qual eu não me sinto representado. Pode estar a ser prosseguida uma política de apoio a um determinado desporto e eu não me interessar minimamente por ele. Os conflitos entre indivíduos e grupos e mesmo concepções de sociedades e a forma de os solucionar, nada mais são do que os confrontos sucessivos em diferentes tempos e espaços desta dinâmica de aprendizagem individual e colectiva.
Finalmente, sobre a diagonal principal temos as diferentes escalas onde podem ocorrer equilíbrios e desequilíbrios entre os diferentes agentes que já identificámos. As políticas não têm todo o mesmo âmbito nem os agentes que as prosseguem têm todos as mesmas competências, embora tenham todos a mesma legitimidade de as promover. O que se está a dizer é que os instrumentos de uma câmara municipal são diferentes daqueles que a administração central detém embora a legitimidade para os aplicar é precisamente a mesma.
E o quê que tem o Surf a ver com esta análise? Tudo. Mesmo tudo. Acredita.
A grande questão é que o surf tem um valor incalculável para cada um de nós mas a sociedade como um todo ainda não lhe reconhece essa importância e como tal não considera forma de valorização colectiva que prossigam os fins que nós como indivíduos gostaríamos.
Em diversas situações o interesse público e colectivo sobrepõe-se ao interesse individual e privado. Isto não tem nada de extraordinário e é normalmente aceite pela sociedade. Há interesses individuais que dificilmente serão reconhecidos de forma colectiva, dada a sua especificidade e a sua área de influência (ou o seu vanguardismo). Neste ângulo de abordagem que estou a propor, o problema é que os interesses da comunidade do surf são ainda vistos como individuais e privados e não como públicos e colectivos. Logo, não se encontram como opção válida ao mesmo nível de outros interesses públicos e colectivos. No momento da escolha são sempre preteridos.
Se queremos colocar o surf (a preservação de uma onda, por exemplo) num mesmo patamar de opção com a construção de um molhe ou de uma marina temos de alargar a área de influência do surf até que a percepção de valor colectivo seja comparável à da opção com a qual a onda se confronta. Ainda assim teríamos de resolver o problema das diferentes escalas territoriais e da hierarquização dos órgãos de poder afectos a cada uma das escalas. Mesmo que conseguíssemos fazer do surf um valor de reconhecido interesse público outros valores colectivos levados a cabo por órgãos de poder superiores poderiam ter preferência.
Isto só significa que há um trabalho muito árduo e sério a fazer e que cada dia que se passa sem o iniciar irá ter consequências, normalmente, irreversíveis para o surf. A Figura 2 ilustra, em termos muito gerais, o caminho que o surf terá de percorrer desde o seu posicionamento actual em 2010 - fenómeno de elevado valor individual mas de fraca percepção pública e colectiva - para um patamar intermédio num horizonte de 2 a 3 anos - a percepção de valor individual e colectivo são similares embora a sua área de influência não ultrapasse a escala local - e, finalmente, para uma escala nacional ou internacional (uma política ibérica de preservação da costa?). Como desencadear este processo? É possível fazê-lo? Será desejável?
Figura 2 - O pathos do surf em Portugal
A percepção do valor de um fenómeno, de um bem ou de um serviço é uma condição necessária, embora não suficiente, para que se possam vir a produzir efeitos económicos e de valorização de contextos, sejam territoriais sejam sectoriais. Neste sentido, acredita-se que existe um limiar mínimo de percepção do valor (de um bem, de uma actividade, de uma política, etc.) a partir do qual se começam a reunir as condições (materiais, reconhecimento público, tratamento institucional e social) que suportam a relevância económica e social do fenómeno em causa. Só é possível a preservação daquilo que se valoriza e, como já vimos, a valorização individual nem sempre se articula com a vontade de preservação colectiva. A verdade é que no caso particular do surf aquilo que valorizamos individualmente só pode ser devidamente preservado colectivamente. Coloca-se então a questão de saber como levar a colectividade a reconhecer valor ao surf?
3. Da monetarização do surf à sua natureza económica e social
Facilmente se compreende que o "valor" é algo se subjectivo (isso não quer dizer que não possa ser quantificado). Cada um de nós valoriza de forma diferenciada diferentes aspectos da vida e diferentes objectos que fazem parte do nosso dia-a-dia. Para aferirmos qual o valor que um qualquer aspecto da nossa vida tem para nós nada melhor que perguntar o que estaríamos disponíveis a renunciar por essa coisa. Quanto maior a nossa disponibilidade para a renúncia maior o valor que atribuímos ao que queremos preservar.
Contudo, reconhecendo e valorizando todas as especificidades possíveis, penso que é possível fazer a seguinte generalização: "o valor de alguma coisa será tanto maior quanto maior for o número de necessidades que essa "coisa" satisfizer (multidimensionalidade) ao maior número de pessoas possível". Mais, se quisermos preservar essa fonte de valor é esta generalização que permite a sua consubstanciação em termos de política, em termos de opções diferenciadas colocadas à disposição da população e do decisor. Qual o valor reconhecido ao surf pela comunidade? O quê que a comunidade está disposta a renunciar para preservar o surf como fonte de valor?
Vários têm sido os trabalhos que internacionalmente tem estudado o impacto económico do surf, quer da sua importância enquanto actividade isolada quer do seu impacto nas economias locais. Só a título de exemplo podem referir-se os seguintes: South Stradbroke Island - Austrália; Bastion Point - Austrália; Ensenada - México; Costa Norte de Oahu - Hawaii; Surfers Paradise - Austrália; Mundaka - País Basco, Espanha; Trestles Beach - Califórnia, USA; Recifes Artificiais - Narrownwck, Cables, Bagarra (Austrália), Boscombe (UK), Mount Mauganui (NZ); Etc.
As estimativas que se fazem da importância do surf enquanto actividade são sobretudo dos seus efeitos directos e indirectos do surf ao nível do emprego criado, das vendas, dos impostos arrecadados, do impacto no turismo local e dos efeitos multiplicadores associados, da publicidade, das roupas, do marketing, dos campeonatos, pranchas, acessórios, do impacto no PIB, das escolas de Surf, dos surfcamps, dos valores fundiários, da rentabilidade da indústria, etc.
Embora se possam apresentar algumas reservas metodológicas sobre algumas dessas estimativas, os valores encontrados são muito significativos, nomeadamente os que dizem respeito ao crescimento relativo desta indústria. A importância monetária e financeira do surf é um facto que ninguém pode negar. Ela existe, alarga-se e basta ver como a ideia de surf é utilizada para vender desde detergentes até automóveis. Já daí não se pode concluir que a sua importância económica e social seja igualmente reconhecida. A dimensão económica e social é muito mais do que a sua componente financeira e comercial que, embora importante, não esgota o valor do surf.
O meu argumento é, precisamente, o de que a importância comercial e financeira do surf não é suficiente para alterar o problema que estamos a tratar. A componente financeira e comercial do surf não é suficiente para se preservar e desenvolver adequadamente o surf, pelo menos em Portugal (estou disponível para conhecer algum caso onde seja suficiente, por muito elevado que esta componente do valor seja elevada). E porquê que não é suficiente? Deveria sê-lo?
Em primeiro lugar, olhando para os factos. Mesmo quando o surf ganha alguma visibilidade (Santo Amaro, Carcavelos, Figueira da Foz,...) são sempre excepções pouco sistemáticas e sustentáveis que apenas confirmam a regra e não dão quaisquer garantias de sucesso para a próxima "intervenção". Aliás, podem enumerar-se diversos casos onde estas intervenções não tiveram o sucesso esperado.
Por outro lado, as estatísticas ainda não captam directamente o fenómeno do surf. Se nos dermos ao trabalho de proceder a uma busca na CAE Rev. 3 (classificação das Actividades Económicas - revisão 3), a única referência à palavra Surf aparece apenas como um exemplo da "Fabricação de Artigos de Desporto"). Este facto pode parecer pouco relevante mas não o é de todo. Se consideramos que uma actividade tem uma dimensão financeira e comercial elevada é de esperar que a sua quantificação se materialize nos principais instrumentos de informação sobre esse fenómeno. Claro que podemos argumentar que o surf e as suas actividades se encontram dispersas e são transversais a vários domínios e actividades e que são difíceis de autonomizar. Contudo este é precisamente o argumento que era utilizado com outras actividades que hoje estão autonomizadas.
Finalmente, se o surf não alarga a sua área de influência para além da escala financeira e comercial está, por um lado, muito dependente das conjunturas de moda e de procura e, por outro, nunca fará parte daquele conjunto de recursos cujo valor é de natureza multidimensional e ultrapassa facilmente a sua natureza comercial e financeira e pode, por isso, fazer parte dos recursos a serem preservados de forma duradoura numa lógica de escolha pública e colectiva.
Colocam-se então algumas questões relevantes que importa discutir ou pelo menos enunciar:
• Terá o Surf conteúdo para ultrapassar essa escala comercial e financeira?
• Como fazê-lo? Quais os processos a desenvolver e os agentes a mobilizar?
• Será adequado fazê-lo?
Quanto à primeira questão, parece-me relativamente simples salientar a natureza multidimensional, multidisciplinar e interdisciplinar do surf. O surf é um elemento aglutinador de valor económico e social, recurso que cria e preserva valor (económico, histórico, ambiental, etc.). Tem um conjunto elevado de efeito multiplicadores de dinamização de actividades que vão para além da "indústria do surf". Pode também, em condições adequadas, servir de estímulo ao desenvolvimento do potencial endógeno dos territórios, levando a acções de compromisso por parte dos agentes. Se pensarmos bem o surf, entendido na sua multidimensionalidade e nas condições únicas que têm de se reunir para lhe conferir eficácia, é um recurso único de difícil imitação, conferindo vantagens competitivas aos territórios. Quando Portugal não se cansa de se queixar da sua perificidade e das suas consequências negativas para a nossa economia e qualidade de vida, o surf é um dos poucos fenómenos, eu arriscaria o único, em que Portugal é central e não periférico.
No que concerne à segunda questão, a proposta aqui avançada - cluster de bens não transaccionáveis de produção localizada (CBNTPL) é apenas um exemplo e específico a determinadas regiões. Para compreender esta proposta temos de compreender a articulação entre dois conjuntos de conceitos: tipos de bens e natureza da estratégia. Um cluster, em termos muito simples, é um agrupamento de actividades (não só económicas) que mantêm entre si um conjunto de ligações (tipo input-output) a montante e a jusante da actividade principal onde, normalmente, a sua dimensão espacial (geográfica) é uma das suas características mais relevantes pelos benefícios que daí podem resultar. Penso que todos já ouviram falar do cluster automóvel em Palmela (ver figura 3). Há um conjunto de actividades que funcionam como foco, outras como actividades de input, complementares ou de suporte. O "automóvel" aí produzido é competitivo porque estas proximidades permitem obter ganhos de diferentes naturezas (económica, financeira, de design, de produção, de especialização do emprego, etc.).
Figura 3 - O exemplo do cluster automóvel em Portugal

Figura 4 - Classificação dos Bens

Segundo a Figura 4 podemos classificar os bens em transaccionáveis (BT) e não-transaccionáveis (BNT), com as características aí descritas. Do ponto de vista do desenvolvimento global (país ou grupo de países) esta argumentação parece verdadeira. Contudo, do ponto de vista do desenvolvimento regional esta é uma visão, no mínimo, demasiado restritiva, uma vez que não é possível todas as regiões especializarem-se em BT. Sem políticas de outra natureza essas regiões correriam sérios riscos de não verem as suas actividades devidamente dinamizadas contribuindo assim para o bem-estar de todo o país. Prefiro, por isso, uma outra classificação: entre bens de produção localizada (BPL) e bens de produção não localizada (BPNL), conforme a figura 5.
Figura 5 - Classificação dos Bens pela sua dimensão espacial

Nesta classificação o surf é uma actividade de produção localizada associada a bens não transaccionáveis (pelo menos na sua classificação tradicional). Chega-se, assim, à proposta da criação e do desenvolvimento de um clusters de bens não transaccionáveis de produção localizada fazendo do surf as actividades do foco, conforme se apresenta nas figuras 6 e 7.
Figura 6 - O surf como o foco, integrador de valor, de um CBNTPL

Figura 7 - O exemplo do cluster do surf em Portugal
À medida que o surf vai integrando outras actividades que parecem separadas a sua área de influência vai-se alargando, incorporando mais actividades e níveis mais elevados de valor e de reconhecimento económico e social. Sobre cada uma das componentes deste cluster haveria muito a explorar mas este não é o momento adequado para tal. Neste texto, deixa-se apenas algumas ideias para mais tarde se poderem aprofundar. Esta é uma estratégia que pretende colocar o surf no centro de um conjunto de opções que podem contribuir para:
• Preservação da natureza, acções de educação ambiental e a requalificação e sustentabilidade ambiental;
• Dinamização económica local e regional - diversificação do perfil das estruturas produtivas, criação de empregos directos e indirectos, aumento do rendimento, efeitos multiplicadores e criação de sinergias e complementaridades;
• Estímulo e potencial de desenvolvimento de actividades que individualmente não tinham limiares de procura mínimos para terem viabilidade económica; economias de escala, de rede e spillovers de conhecimento;
• Preservação da memória e o aprofundamento de novas áreas de investigação: o mar como desígnio estratégico, recifes artificiais, incorporação e potenciação de conhecimento tecnológico no exterior. Neste caso, o aumento de valor interno ajuda a consubstanciar o reconhecimento externo.
• Projecção do território nacional no exterior: atractividade e competitividade;
O que é paradoxal, também do ponto de vista económico, é que numa fase em que é tão difícil atrair investimentos, mobilizar recursos e criar diferenciais competitivos, Portugal desaproveite, destruindo, capacidades e aptidões que "nenhum chinês seria capaz de imitar".
4. Plano Estratégico Nacional de Surf (PENS)
Para sermos coerentes com aquilo que se vem defendendo não poderíamos ficar por propostas de soluções ad-hoc e avulso sem qualquer sustentabilidade ou dependentes da conjuntura. Logo, e em consonância, propõe-se o início da elaboração do Plano Estratégico Nacional do Surf (PENS). É urgente elaborar um "Livro Branco" do surf em Portugal, integrando num só documento as grandes linhas de orientação do surf susceptíveis de se articularem com outros documentos estratégicos de referência. O surf tem de ter uma posição coerente, sistemática, decorrente da integração das diversas sensibilidades. É, por isso, urgente trazer o Surf para o léxico subjacente aos documentos e às políticas de natureza estratégica que permitam colocá-lo em posição de igualdade em potenciais escolhas futuras.
Se estudarmos os principais documentos de natureza estratégica em Portugal não encontramos referências explícitas ao Surf. Vejam-se os seguintes exemplos (Figura 8, 9 e 10).
Figura 8 - Principais Instrumentos de Estratégia
Figura 9 - PROT LX e Oeste
Figura 10 - Estrutura Regional de Protecção e Valorização Ambiental
Nestes documentos não há qualquer referência explícita ao surf. Se o surf fizesse parte das preocupações destes documentos, as figuras poderiam aproximar-se da figura 11.
Figura 11 - Uma manifestação possível do Surf no PROT LX e Oeste

A elaboração do PENS deve dar atenção especial a algumas questões, nomeadamente:
• Enquadramento do Surf na sociedade portuguesa e as justificações para a elaboração de um documento desta natureza;
• Definições de vocações/território/ondas;
• Aptidão da costa portuguesa para o estudo e a investigação;
• Principais actores envolvidos e interdependência de estratégias;
• Construção de indicadores e sistemas de monitorização;
• Produzir indicações para estudo de um Caso Piloto baseado numa estratégia de CBNTPL;
• Demonstração, de forma sólida e sistemática, dos impactos económicos directos, indirectos e induzidos do surf. É fundamental mostrar que o valor do surf é superior ao seu impacto comercial e financeiro;
• Contingent Valuation Method, como ponto de partida para a quantificação subjectiva do valor;
• Escolha de uma onda e lançamento de uma candidatura a património mundial, ou outra qualquer denominação (património cultural, estrutura ecológica, área classificada, corredores ecológicos);
• Proposta de Metodologia para a incorporação do surf em estudos de impacte ambiental;
• Estudo das consequências da não preservação das ondas e do surf.
Estes são apenas alguns aspectos introdutórios que deverão servir como ponto de partida e de organização dos trabalhos subjacentes à elaboração deste documento por uma equipa verdadeiramente interdisciplinar.
A minha comunicação na Figueira da Foz terminou com uma síntese onde se salientou a importância da organização dos actores, da natureza das estratégias a enunciar e prosseguir, a comunicação com a sociedade no seu geral, a construção de um "plano de actividades" - uma base comum de trabalho - sob uma organização formal da comunidade do surf - um núcleo de investigação e divulgação do Surf. Terminei referindo que estes desafios tinham (e têm) inerente outro desafio ainda maior - compreender que não podem ser prosseguidos de forma independente.
5. E depois da Figueira da Foz?
O encontro da Figueira da Foz foi um momento de reflexão e de discussão único. A sua importância deve ser medida não só pelas discussões existentes nesse fim-de-semana mas também pela forma como germinaram as sementes desse encontro. Saliento quatro acontecimentos que podem vir a produzir resultados positivos num futuro próximo.
• O SOS elegeu novos corpos dirigentes onde foram enunciados um conjunto de objectivos, entre eles a identificação de uma equipa para iniciar o processo de elaboração do Plano Estratégico Nacional de Surf;
• Há uma equipa a elaborar um primeiro documento estratégico susceptível de ser discutido com os órgãos de decisão política no sentido de sensibilizar e operacionalizar algumas medidas imediatas em três áreas fundamentais: mini-max legislativo para competição (por vezes pequenas alterações que levantem estrangulamentos chave permitem avanços substanciais com poucos custos associados), a experiência surf e a articulação do surf com as comunidades envolventes;
• Simultaneamente, estão a ser dados os primeiros passos por um conjunto de surfistas da Figueira da Foz com o objectivo de lançar o iSurf, I&D.
O iSurf, I&D tem como missão desempenhar um papel activo na concepção, desenvolvimento e implementação de políticas, estratégias e acções de dinamização, crescimento e desenvolvimento do surf nas suas múltiplas dimensões e considerando as suas diversas inter-ligações com a sociedade e os seus fundamentos do iSurf passam por quatro grandes ideias: aquilo que se valoriza individualmente apenas pode ser eficazmente preservado de forma colectiva; o Surf é uma actividade emergente de elevado potencial económico e social; não estão devidamente reconhecidas, explicitadas e exploradas as múltiplas dimensões do surf e as suas articulações com as restantes áreas da sociedade; e, o âmbito de intervenção do iSurf, I&D será determinado pela área de influência dos problemas a equacionar. O iSurf, I&D reconhece as múltiplas e complexas relações de interdependências existentes entre problemas, agentes, objectivos, instrumentos, estratégias, políticas, órgãos de poder e escalas territoriais envolvidas nas dinâmicas actuais e futuras do seu espaço de intervenção.
iSurf, I&D irá prosseguir quatro grandes objectivos: o estudo, a investigação e a divulgação do surf nas suas múltiplas vertentes e dimensões; a criação, promoção e exploração de eventos e actividades de natureza desportiva, comercial, cultural, etc. fazendo do surf um ponto de partida e/ou um ponto de chegada; a atribuição anual de um iSurf~Award a indivíduos ou organizações que se tenham distinguido com acções objectivas que incorporem a filosofia do iSurf, I&D; e, a promoção de acções e comportamentos que promovam a competência, o mérito, a responsabilidade e o respeito pelo nosso planeta, nomeadamente junto das populações mais jovens. Para prosseguir estes objectivos serão criados quatro instrumentos: um Centro de Estudos, Investigação e Divulgação do Surf, um Centro de Criação e Promoção de Eventos, um Centro de Análise e Propostas do iSurf~Award e um Centro de Apoio Integrado ao Estudante.
• Finalmente, A SURFPortugal convidou-me a escrever este texto, onde desde já agradeço a oportunidade de divulgar ao grande público a comunicação da Figueira da Foz. Espero e estou pessoalmente empenhado em que estas iniciativas (e outras que certamente estão a acontecer ou a ser concebidas) possam contribuir para que daqui a 20 anos os nossos filhos se possam orgulhar daquilo que lhes deixámos como legado, nomeadamente em termos de pensamento, acção e comportamentos.
Sérgio Nunes, spnunes@ipt.pt e sergio.nunes@moptc.gov.pt