rory pipe
Rory em Pipe numa foto que há-de perdurar na memória de muitos.
2009.05.14 16h28
Rory Russell: "O acto de surfar não tem tempo nem idade"
Se o retro regressa sorrateiramente ao mainstream como em nenhuma outra modalidade desportiva, então Rory Russell devia estar na moda.

Media

rory lb
Recuerdo fotográfico de uma das suas muitas viagens.
Em entrevista exclusiva à SP, Rory Russell partilha algumas das aventuras e desventuras que fizeram dele um dos maiores, mas também mais desconhecidos - ícones da modalidade.

SurfPortugal: Para começar, conta-nos o que tens feito durante todos estes anos de relativa obscuridade. Sei que trabalhaste durante algum tempo como marinheiro, não foi?

Rory Russell: Quando a Lightning Bolt se impulsionou, em 1984, eu estava muito descontente com o surf no North Shore. Os crowds estavam fora de controlo, eu tinha de ser um grosseiro impiedoso na água e essa, simplesmente, não é a minha maneira de ser. Por isso, direccionei a minha atenção para lá das ondas e tornei-me oficial da marinha mercante. Fui designado para capitanear um navio de 50.000 toneladas; se pensavas que dropinar-te com a minha prancha hot dog era mau, imagina-me a entrar no line-up num navio de 50.000 toneladas - get the fuck out of my way! Em sete anos, fiz muito whalewatching e muitos cruzeiros no North Shore. Entretanto, tive a oportunidade de comandar barcos de mergulho e de dirigir uma escola de surf na Big Island. Tenho muitas casas no North Shore e vou lá muitas vezes, mas tenho a escola na Big Island e é lá que, por enquanto, vivo. Adoro dar aulas de surf: toda a gente sonha surfar uma onda; eu transformo esses sonhos em realidade! 

Como vês este movimento retro que se tem manifestado no surf nos últimos anos, em que os ícones dos anos 70, sejam objectos ou surfistas, têm sido recuperados pelas novas gerações?

Eu diria que os anos 70 foram provavelmente os mais revolucionários para o surf. Tivemos a "shortboard revolution", que foi realmente um ponto de viragem para o futuro. As pintail que tenho feito são muito semelhantes, em retrospectiva, às que usávamos em Pipe há 30 anos, e funcionam tão bem hoje em dia quanto outra coisa qualquer. Garrett Mcnamara provou-o este ano em Off-The-Wall. Nós começámos algo bom, sabíamos o que estávamos a fazer. If it's not broken, don't fix it: make it better. 

O surf parece ser o único desporto em que modelos antigos têm feito um expressivo retorno ao mainstream. Na tua opinião, o que é que isto diz sobre a actividade que escolhemos?

O acto de surfar não tem tempo nem idade. Não interessa em que tempo vives nem que idade tens, a pica está sempre lá. Para além disso, o surf tem qualidades curativas que eu mal explorei. 

Alguma vez sofreste as consequências de seres um miúdo branco durante a tua adolescência no North Shore?

Agora sei o que uma pessoa de cor terá passado ao crescer nos Estados Unidos ou na África do Sul... Havia 10 haoles no liceu de Waialua, no North Shore, e havia um dia do ano que era o "kill haole day" na escola. Escusado será dizer que eu estava na água nesse dia. Os meus amigos avisavam-me no dia anterior.

A minha mãe era professora na escola onde eu andava e, Caramba, a pior coisa que fiz foi ter-lhe ensinado a reconhecer o que era bom surf. Grande erro! Mas desde que eu permanecesse no 'Honor Roll Excellence' na Academia, podia passar dois dias por mês em casa, longe da escola, a surfar. 

Como foi crescer sob a influência de uma figura como Jock Sutherland? Que importância teve ele no desenvolvimento da tua performance em Pipe?

A minha família mudou-se para a casa ao lado da do Sutherland em 1967, quando o Jocko começou a destacar-se de toda a gente, e eu, hey, simplesmente segui-o! Ele foi a maior influência em relação à minha mudança de posição sobre a prancha, que se revelou muito vantajosa nos campeonatos. Houve pessoas que me vieram dizer: "Eu pensava que eras goofy". Fazia tubos igualmente profundos. 

Como entraste na cena do shape? Consideras que a revolução da shortboard correspondeu ao melhor (ou mais divertido) período para se ser um shaper?

Bom, como toda a gente tinha salas de shape e de fibragem nas garagens, e como eu era o rapaz de entregas do Grubby Clark, foi uma progressão natural. Para além disso, o Gerry [Lopez] estava a fazer o nosso quiver completo, ele foi a maior influência no meu shaping. Pode-se dizer que Jocko foi a maior influência no meu surf, e Gerry na minha forma de shapar. Quanto a ter sido ou não o período mais divertido, eu diria que sim, sem dúvida. As pessoas faziam as pranchas mais bizarras, vi tudo o que possas imaginar, coisas muito engraçadas. 

Fala-nos da importância do Tom Parrish no desenvolvimento e divulgação da Lightning Bolt. Achas que a marca se teria tornado tão grande quanto se tornou na altura, se não fosse a predominância dos designs do Tom entre os riders de topo daquela época?

O Tom era e é um tipo porreiro e muito talentoso. Ele era tremendo a compreender do que cada surfista precisava enquanto indivíduo, e digo-te que é difícil satisfazer um surfista no que diz respeito à sua prancha. Ele tinha muito a ver com as performances e os sucessos dos seus riders, mas também aqueles tipos podiam surfar com a porta da casa-de-banho que ripavam. Era também um bom surfista. Bons surfistas sabem fazer boas pranchas. Naquela altura, qualquer surfista de topo teria gosto em integrar o team Lightning Bolt, simplesmente não era possível. Devíamos ter criado uma equipa a nível mundial, em que qualquer surfista fosse um team rider. É disso que a LB se trata: uma equipa internacional com surfistas de todo o mundo, todos os surfistas pertencem à equipa. Yo, baby! 

Fala-nos da tua amizade/rivalidade com Gerry Lopez nos anos 70. Lopez é legitimamente retratado como o surfista dos surfistas em Pipeline, mas mesmo durante o seu apogeu ninguém, nem mesmo ele, obteve um record competitivo como o teu em Pipe. Fala-nos sobre as vossas diferentes abordagens à onda e sobre se a vossa relação era ou não uma relação amigável.

Eu e o Gerry somos e vamos ser sempre grandes amigos. Com ele há sempre muitas gargalhadas e muitos tubos. A nossa abordagem a Pipeline é a mesma, meter para dentro e procurar o sinal "EXIT". Quanto aos campeonatos, podiam ter sido quatro vitórias seguidas, sem problemas, mas as circunstâncias... Vou colocá-lo desta forma: todos os anos a minha linha de crédito monetário subia quando chegava a altura do campeonato em Pipe. 

Qual era o cenário em Pipe nesses anos? Quem é que andava nos tubos? Quem é que começou a dropar atrás do pico? Quando é que Backdoor entrou em cena e quem foram os primeiros a lá ir?

Eu cheguei ao Havai a 4 de Agosto de 1964, contra a minha vontade. O meu pai era um oficial da armada norte-americana e foi destacado para o Havai. Surfei Himalayas no North Shore pela primeira vez nessa altura, e tenho lá estado desde então. Quando esses tipos vieram para o North Shore, eles eram apenas mais uns a porem-se no meu caminho no meu quintal. Nos campeonatos, eu dei-lhes na pá. O Ian ganhou o Duke, eu fiquei em terceiro; o Shaun ganhou em Pipe, eu fiquei em segundo. Em 76 eu ganhei o Pipe e o North Shore Championship (ex-Hang Ten) e fiz as duas finais no mesmo dia. Nenhum deles fez as duas finais. Oh, yeah - eu destronei o Ian nos quartos-de-final e ele quis-me bater. Isso foi de mais. Eles arrombaram a porta só para descobrir que eu já lá estava. 

Embora vindo do continente, no início dos anos 70 já eras praticamente considerado um local no North Shore. Como te posicionastes durante os anos "bustin' down the door"? Alinhaste na animosidade geral contra a invasão dos aussies ou permaneceste neutro? Como encaravas a abordagem dos aussies e dos sul-africanos?

Houve alguns tipos que apanharam boas ondas. Doug Brown (Mike Armstrong), Brian Balkley, Mike Ho, Crawford, John Dam, Jackie Dunn, Mike Kealoha... Quem foi mais fundo é que já é difícil dizer. Cada onda tem uma zona de 3/4 pés de amplitude que corresponde ao sítio certo para te posicionares para a apanhares. Cada onda atinge o reef a partir de uma direcção diferente, por isso o ponto de take-off varia de onda para onda. Eu sei qual é o ponto de take-off em cada onda, mas não vou dizer. Nem acredito que Shaun e os outros não tiveram tomates para surfar Backdoor e Off-The-Wall antes de '75. Vi alguns filmes do Curt Mastalka e do Barry Kanaiapuni comigo a surfar Backddor perfeito quando tinha 15 anos, em '69. Aqueles tipos perderam muitos dias bons. Jeff Hackmam foi um dos primeiros. 

Como encaras o cenário em Pipeline hoje em dia? Deve ser entusiasmante para ti ver o que surfistas como Jamie O' e outros fazem na onda.

Eu estive no Masters este ano e estava completamente extasiado. Aqueles tipos passaram tanto tempo dentro do tubo que deviam ter sido obrigados a pagar renda. O Jamie entrou num tubo em posição regular e saiu como goofy-foot - de loucos! 

Estiveste entre os primeiros a embarcar na aventura do circuito profissional de surf. Fala-nos desses primeiros anos de profissionalismo: como eram as viagens, as festas, a competitividade?

Só estive na Austrália dois anos seguidos, foi muito divertido. Dei-me muito bem em ondas pequenas, fiz algum dinheiro. O que eu queria mesmo era correr o Tour mas... gosto de ir pelos caminhos menos percorridos. 

O que podes dizer sobre o teu envolvimento com a Lightning Bolt ao fim de todos estes anos? É algo que alguma vez pensaste que estaria de volta à tua vida?

Não há competição possível com a Lightning Bolt. Não se trata de uma mania, não se trata de uma moda. A LB simboliza o surf e a vida como nenhum outro símbolo, marca ou nome. Simboliza a experiência electrizante, a emoção e a dinâmica do surf em si mesmo, a sua verdadeira essência, com que toda a gente se pode identificar. A LB vai existir enquanto existir vida. Enquanto puder, vou sempre ter um raio na minha prancha. 

Notas

A entrar de cabelo seco em Mancora: "Um dia disse ao Gerry: sabes como é que consegues perceber se um gajo conhece o spot? Pelo cabelo. Se estiver seco quando ele chegar lá fora, ele sabe o que está a fazer..."

Art Brewer: "Estive com ele em Portugal, há talvez 30 anos, e ele foi preso por minha causa. Nós fomos interceptados pela Polícia devido a excesso de velocidade e, quando estava a falar com o agente, disse-lhe: olhe para o fotógrafo, sorria, ele está a tirar-nos uma fotografia! Ele não achou piada e o Art foi imediatamente levado para a esquadra, onde passou a noite. Ficou lixado comigo!"

Pranchas: "Comprar uma prancha na loja custava 200 dólares; comprar resina e fazer uma custava uns 20. Então começámos a fazer as nossas próprias pranchas, e podíamos fazer o que quiséssemos!


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