A única verdadeira surf shop madeirense, a Madeira Island Surf Shop, localizada no Anadia Shopping, em plena baixa funchalense, um dos locais mais afectados pelas enxurradas do passado fim-de-semana, acabou por escapar às intempéries sem grandes danos, segundo nos informou o seu proprietário, Rodolfo Machado.
Interrogado sobre o estado actual da sua loja, Rodolfo, um surfista e arquitecto lisboeta que há anos vive e trabalha naquela ilha, dá conta dos estragos sofridos: "O soalho está todo estragado mas, quanto ao vestuário, o prejuízo ficou-se por cinco ou seis pares de ténis que estavam no chão. De resto, por sorte, a minha loja nem foi das mais afectadas", relata aliviado.
Inicialmente, Rodolfo estava mais preocupado com a sua funcionária, da qual não conseguia ter notícias. "No fim-de-semana passado eu estava em Lisboa, a ver colecções, por isso soube do ocorrido como toda a gente, pela televisão", conta ele. "A funcionária da loja, a Cátia, tinha-me ligado na manhã de Sábado a dar conta de que a chuva estava muito forte, mas quando tive a real noção do que estava a acontecer, tentei entrar em contacto com ela e não conseguia obter resposta. Quando vi pela televisão a dimensão do desastre, sinceramente nem pensei na loja, só queria saber se ela estava bem". Quando finalmente conseguiu estabelecer contacto, Rodolfo ficou a saber que a jovem, como tantos outros, tinha sido arrastada na enxurrada, conseguindo porém escapar sem grandes ferimentos.
Seis dias após o pico do temporal, a situação do Anadia continua a ser uma das mais delicadas. "O problema agora é a falta de meios", aponta Rodolfo. "Há muitas pessoas que se têm deslocado ao Centro para ajudar mas não têm pás, não têm nada... Há falta de recursos. Mesmo nas ribeiras, estão dez camiões por ribeira porque não há mais máquinas disponíveis na Madeira", acrescenta.
Quanto ao futuro da Madeira Island Surf Shop, o seu proprietário conta com a solidariedade e compreensão dos fornecedores. "Isto é um projecto recente, em que não nos limitamos a fazer um trabalho de loja. Alguns dos miúdos que fazem surf aqui são apoiados por nós e já se mostraram disponíveis para ajudar. Agora quero ver como é do outro lado", remata.
Embora ciente da dimensão astronómica do fenómeno que se abateu sobre o arquipélago madeirense, Rodolfo não deixa de criticar a actuação da Protecção Civil (PC), acusando as autoridades de não terem informado devidamente a população. "Por exemplo, no caso do Belmiro (um dos mais consagrados surfistas madeirenses), ele viu o Windguru e topou logo que vinha lá uma enxurrada. Ele e a namorada pegaram nas coisas, saíram do Jardim do Mar e foram refugiar-se na casa da mãe da namorada dele. Ora, se nós, surfistas, fomos capazes de prever que isto ia acontecer, por que é que a PC não alertou a população? Lançaram um alerta vermelho, está certo, mas é preciso perceber que no entender de um madeirense, de um cidadão comum, os alertas amarelos, laranjas, etc. são dirigidos aos pescadores, são coisas que não lhes dizem directamente respeito. Num sábado de manhã, em que toda a gente veio ao centro fazer compras, como de costume, as pessoas viram-se impossibilitadas de regressar para cima - e as que tentaram foram apanhadas pela enxurrada. Eles deviam ter dito às pessoas para não desceram para o centro do Funchal", remata.
Entretanto, uma equipa de bombeiros da Alemanha já chegou ao Funchal para assistir o corpo de bombeiros local, numa altura em que as operações para retirar a água e o entulho do parque de estacionamento do Anadia, onde poderão ainda existir vítimas, continuam a decorrer, num esforço conjunto por parte de bombeiros, equipas cinotécnicas e mergulhadores da Marinha.